Pois sem mulher a luta vai pela metade

março 2010/Sem Terra

A REFERÊNCIA histórica principal da instituição do Dia Internacional da Mulher é a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em 1910, em Copenhague, na Dinamarca, quando Clara Zetkin, dirigente do Partido Social Democrata Alemão, propôs a resolução de instaurar oficialmente um dia internacional das mulheres. Nessa resolução, não se faz nenhuma alusão ao dia 8 de março, mas Clara menciona o exemplo das socialistas estadunidenses. De novembro de 1909 a fevereiro de 1910, uma longa greve dos operários têxteis de Nova Iorque, liderada pelas mulheres, terminou pouco antes do “Woman’s Day”, em 27 de fevereiro 1910, realizado no
Carnegie Hall, quando três mil mulheres se reuniram em favor do sufrágio, conquistado em 1920 em todo os Estados Unidos.

Uma versão bem popularizada apresenta que durante uma greve, no dia 8 de março de 1857, em Nova Yorque, 129 operárias têxteis morreram queimadas na fábrica onde trabalhavam quando reivindicavam redução da jornada de trabalho e aumento salarial. Os donos da empresa teriam sido os responsáveis pelo incêndio criminoso. Mas para a pesquisadora Renée Coté, não há fontes históricas que registrem essa greve, e sim uma série de lutas das mulheres para se firmarem.

Outra versão para a escolha do 8 de março está na ligação dessa data com a participação ativa das operárias russas em ações que desencadearam a Revolução Russa de 1917. Naquele ano, uma ação das operárias realizada no dia 8 de março – no calendário ocidental (que usamos no Brasil), ou 23 de fevereiro, no calendário russo – foi o fato político que precipitou o início das ações revolucionárias que tornaram vitoriosa a Revolução Russa. Em Petrogrado, explodiu uma greve de tecelãs e costureiras. Contrariando a decisão do partido, que defendia que aquele não era o momento ideal para a mobilização, 90 mil trabalhadoras saíram às ruas exigindo paz e alimento. A manifestação foi considerada o estopim da revolução. Lembrando a iniciativa das mulheres russas, anos mais tar de, em 1921, durante a Conferência Internacional das Mulheres Comunistas, o 8 de março foi considerado a data unificada para a luta das mulheres trabalhadoras.

As duas versões, apesar de diferentes, guardam entre si a semelhança da histórica reivindicação feminina por melhores condições de trabalho e vida. Evidenciam também que as mulheres historicamente estiveram nas lutas sociais em todo o mundo.

Luta no Brasil

No Brasil, a luta feminista conquista manifestação expressiva no Ano Internacional da Mulher, comemorado em 1975 e que refletiu de forma positiva no movimento de mulheres, instaurando
definitivamente o 8 de março como data integrante da agenda de luta dos movimentos sociais e organizações de trabalhadores do país. A partir de então, grupos e entidades feministas se organizaram ou ganharam força para encaminhar as atividades. Grandes manifestações promovidas por mulheres organizadas em partidos, sindicatos e outras entidades passaram a tomar as ruas.

Muitos anos mais tarde, em 2000, nasce a Marcha Mundial das Mulheres (MMM), como uma grande mobilização que reuniu mulheres do mundo todo em uma campanha contra a pobreza e a violência. A inspiração para a criação da MMM partiu de uma manifestação realizada em 1995, em Quebec, no Canadá, quando 850 mulheres marcharam 200 quilômetros, pedindo, simbolicamente, “Pão e Rosas”. A ação marcou a retomada das mobilizações das mulheres nas ruas, fazendo uma crítica contundente ao sistema capitalista como um todo. Neste ano, estão
previstas novas ações internacionais.No Brasil, 3 mil mulheres sairão em marcha, de Campinas a São Paulo, entre os dias 8 e 18 de março.

Mulheres Sem Terra na luta

A força das mulheres Sem Terra nas lutas da classe trabalhadora, por Reforma Agrária e pelo fim da discriminação, sempre acompanhou o Movimento. As mulheres já participavam ativamente da luta de todos os Sem Terra mesmo antes da organização do MST. A paraibana Elizabeth Teixeira é um símbolo vivo desse protagonismo. Por muitos anos, ela e seu companheiro João Pedro Teixeira lideraram milhares de camponeses organizados nas Ligas Camponesas, que nasceu
em 1958 e foi um dos mais expressivos movimentos de trabalhadores rurais do século passado. Com a intenção de dar fim a essa expressividade, em 1962 um fazendeiro e dois policiais militares assassinaram João Pedro, na ilusão de que o movimento chegaria ao fim. Foi então que Elizabeth Teixeira assumiu o comando da luta, resistindo à frente das Ligas sem nunca se intimidar com a repressão. Junto a 16 mil camponeses, enfrentou a ditadura militar, foi presa
diversas vezes, obrigada a fugir e trocar de n ome para não morrer.

Assim como Elizabeth, as mulheres Sem Terra de ontem e de hoje nunca deixaram a linha de frente das lutas. Todos os anos, no dia 8 de março, colocam em pauta temas políticos. A data é uma motivação para as mulheres Sem Terra: é o dia em que assumem o comando. As mulheres são desafiadas a pensar diferentes ações no campo da formação, da organização, da segurança e da comunicação.

Mais do que o Dia Internacional da Mulher, o 8 de março marca a primeira data do ano em
que o Movimento faz uma grande luta nacional. O fato criou uma mística em torno da data, que trata da luta do conjunto do Movimento assumida pelas mulheres. Nos últimos tempos, o MST adotou o 8 de março também como um dia de debate do modelo agrícola. As mulheres sofrem o impacto de um modelo de agricultura perverso e tomam consciência que precisam ir para o enfrentamento e mostrar para a sociedade que há um projeto alternativo de agricultura camponesa. Foi essa reflexão que impulsionou a ação mais emblemática dos últimos anos, liderada pelas mulheres da Via Campesina: a ocupação do campo de experimentos da
Aracruz, no Espírito Santo, realizada em 2006. A partir daí, as lutas que marcam a data passaram a seguir essa perspectiva de combate ao latifúndio moderno, à hegemonia das transnacionais no campo de nosso país.

A história do Setor de Gênero do MST

O debate sobre a participação das mulheres existe desde a criação do Movimento. No I Congresso, a direção nacional resolveu que 30% dos participantes deveriam ser mulheres. A discussão foi feita nos assentamentos, com ajuda da Igreja, dos grupos de mulheres da Teologia da Libertação e dos sindicatos. As mulheres começaram ocupar as instâncias nacionais e fazer
reuniões específicas para discutir suas condições como militantes e responder o desafio de como motivar mais companheiras da base a participar. Em 1996 foi realizado o I Encontro Nacional de Mulheres Militantes do MST. O debate era como fazer avançar o fortalecimento das mulheres Sem Terra, tendo muito clara a auto-organização como mais uma iniciativa para
enfrentar o capital. Em 1998, aconteceu o II Encontro Nacional, nesse momento fica clara a necessidade de convocar os homens para o debate, pois o Movimento não avançaria se os companheiros não nos acompanhassem. Começou- se a discut ir gênero e poder. Ao longo do processo, as mulheres Sem Terra se deram conta de que teriam de entrar na estrutura orgânica do Movimento e colocar a necessidade de ter pessoas responsáveis para fazer o debate. Em 2000, no IV Congresso Nacional, foi aprovado o Setor de Gênero.

 
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